18 de dezembro de 2013

Sacada



Era seu último cigarro do dia.
Da sacada do meu quarto sua janela era quase um borrão lá embaixo nas ruas.
E eu sabia que logo ela fecharia a janela e dormiria.
Mas ainda não: era seu último cigarro do dia.
Era o seu momento de suspiro; seu abraço de boa noite.
Precisava de dez minutos só seus pra pensar o que quiser que fosse:
precisava flutuar um pouco.

Era seu último cigarro do dia.
Precisava pensar.
Pensava sobre tudo o que não podia pensar durante o dia, quando suas horas eram roubadas por outros.
Pensava olhando os prédios.
Que será que pensava?
"Que será que andam suspirando pelas alcovas;
Que andam acendendo velas nos becos;
Que estão falando alto pelos botecos?"
O que ela, solitária na janela, poderia estar pensando?
Deve estar pensando no amor que queria.
Ou no que queria que fosse o amor.
Ou no amor que tinha e não satisfazia.
Ou em como os fios dos postes nunca combinaram tanto com o asfalto.

Era o seu último cigarro do dia.
Suspirou e então fechou a janela sob a luz alaranjada dos postes.
Se transformou em mais uma pessoa dentro de mais um quarto em meio aos prédios.
As luzes dos apartamentos aos poucos se apagaram.
As pessoas estavam seguindo suas vidas,
e o escuro que tomou conta da madrugada me perguntou em silêncio o que eu, parado aqui, estou fazendo da minha.

Estou pensando, Escuro.
Estou pensando na minha versão sobre o que eu queria que fosse o amor.



3 de novembro de 2013

Constatação



Todo tédio é um princípio de entropia.
Todo prédio passa ar de casa vazia.
O às vezes é o começo do perpétuo.
A inércia é uma promessa para o incerto.
O escuro é o convite do abismo.
O suicídio é o par do escapismo.
O bocejo é o suspiro de uma alma.
Uma brisa é um passeio pela calma.

Um abraço é um lugar que é mais seguro.
Um perdão é a projeção para o futuro.
Um mendigo é a expressão da liberdade.
Um filósofo é só um pouco da verdade.
O carinho é um pedido de um corpo.
O sorriso é a contração do rosto todo.
Solidão é o pretexto de um cigarro.
E o beijo, amigo, é a véspera do escarro.

Ansiedade é querer ser cada lugar.
Viajar é se sentir parte do mar.
O poeta é o que sorri em sua dor lida.
Querer mais é o grande mal de uma vida.



27 de outubro de 2013

Madrugada



Acordou.
Assim como as outras vezes, não sabia por que tinha acordado.
Sentou na cama.
Não sabia que horas eram.
Pensou no arrastado trajeto até o banheiro.
Bocejou como quem não quer pensar em nada nos próximos minutos.
Levantou.

Saiu do banheiro e foi à cozinha.
Sentou.
Podia sentir o frio metálico da cadeira, mas a preguiça era demais pra se esquivar dessas pequenas coisas.
Comeu bolachas.
Olhava fixamente pra janela fechada.
O vidro deixava passar alguma luz amarelada de algum poste da rua.
Comeu bolachas como quem não tem mais nada a perder; como quem nasceu pra sentar em cadeiras metalicamente frias e comer bolachas.

Terminou de comer e ficou cinco minutos parado sentindo o ar ligeiramente frio que circulava pela casa.
Podia enxergar o trajeto do vento pelos cômodos.
Percebeu que estava se sentindo em paz.
Não havia peso em suas costas.
Não havia pedras em sua cabeça.

Deitou na cama e se cobriu.
Queria vencer o sono e prolongar aquele momento.
No fundo, sabia que esses  quinze minutos foram os momentos mais verdadeiros que já tinha vivido.
Percebeu que o ontem era domingo e o amanhã seria segunda: e os quinze minutos não estavam em dia nenhum.
Eram quinze minutos seus.
Quinze minutos fora de qualquer coisa.

Não acreditou em quão leve podia ser viver.
Sabia que tudo isso iria passar quando acordasse.
Virou para o outro lado da cama e se cobriu até a cabeça.
Se conformou com a não-poesia do óbvio que estava por vir.

Dormiu.
E os dias foram como sempre foram.



9 de outubro de 2013

Hábito



Tenho o hábito
de ver
as coisas mortas.

O meu óbito
é crer
nas coisas tortas.

Meu aperto
na garganta
é infinito.

E me sufoca
esse hábito
que habito.



4 de agosto de 2013

Peso morto


Pra tirar o peso
de toda a mentira
me encontro no escuro
com um anjo torto
(desses que vivem
somente na sombra).

Pra tirar a mentira
de todos os gatos de todas as casas,
de todos os canos do apartamento,
de todas fachadas das lojas do centro,
de todos escravos do horário do almoço,
de todas as velas de todas as festas,
de todo bocejo
do homem que acorda
pensando que a vida
é só se arrastar.

Pra tirar a mentira
e todo esse peso
me encontro no escuro
com meu anjo torto.

Ficar
sem pensar
e se
arrastar
qualquer ser do mundo,
qualquer outro bicho,
faz.



29 de maio de 2013

Gauche na vida



Só confio mesmo
em quem bate no peito
e ergue a bandeira.

Quem cola no rosto
o olhar de vazio.
Quem cava tua lama.
Quem canta a revolta.

Quem corre na alma.
Quem cala por colo.
Quem clama por cama
e reclama por calma.

Só confio mesmo
em quem bate no peito
e ergue a bandeira:
quem vive sem paz
por não saber viver.



14 de abril de 2013

Bocejo interno



A mulher escolhe um fruto
e o velho salta o degrau
e a loira conta o minuto
e a criança passa mal
e o estudante e sua apostila
e o pedreiro e sua mochila
e o executivo de terno
e o adolescente moderno
e no meio disso tudo:
eu.

Parado.
Alheio.
Com a velha consciência
de que tudo vai passar.
Cada esforço.
Cada abraço.
Cada passo.
Cada beijo.
E o que fica,
como sempre,
é o meu
bocejo.



3 de fevereiro de 2013

Sua caneca




Quando você levantava pra fazer café pra gente e eu ficava com a cara enfiada no travesseiro escutando você lavar o rosto.
Foi naquela hora que vi. Tinha acabado de acordar: nasci de novo ali naquele lugar.

E por um pequeno momento - só ali, naquela hora - o mundo se resumiu só àquilo: estava simples.
O ar gelado de manhã; você ali: só naquele momento, vi que não havia problemas nas nossas vidas.
Nem haveria de haver.

Senti essa sensação de ter entendido a coisa toda; pela primeira vez a decifrei e não fui devorado.

Vi uma simplicidade difícil de ver, porque é uma simplicidade que inconscientemente não estamos preparados pra suportar.
Nós até desconfiamos - no meio de nossos dias - que ela possa existir, mas não queremos acreditar porque pensamos "então é isso?", "e agora? Acabou?".
Mal sabemos que o começo é ali. Aquilo é o começo.

Enxergar essa simplicidade é só o primeiro passo.






28 de janeiro de 2013

Sem lenço, sem documento



‒ Gostei desse lugar.

‒ Por quê?
‒ Porque é calmo e dá pra ficar vendo a avenida.
‒ Sim. A poesia fica mais perto.
‒ Ué. Como assim?
‒ Ah. Não sei direito. Ando meio cansado, acho. Ando prestando atenção nessas coisas.
‒ Ainda não entendi.
‒ Acho que a gente deveria sair mais de casa. Também existe poesia fora do meu quarto. Você disse que gosta daqui porque pode ficar quieto olhando a avenida. Isso é poesia. Em alguns lugares a poesia se mostra pra gente, mas ela é sempre muito sutil.
‒ Acho que entendi.
‒ Entendeu mesmo?
‒ Mais ou menos. É difícil. Prestei atenção no que você disse, mas não sei...
‒ Te entendo. Quando estiver olhando pra avenida, tenta não prestar atenção em nada, então talvez alguma nuvem de poesia apareça e, com vergonha, diga "oi".
‒ Então não devo prestar atenção em nada pra poder enxergar poesia?
‒ Exatamente. Mas descobri outro jeito de enxergar poesia também.
‒ Que jeito?
‒ No fundo do poço.
‒ (...)
‒ Com o tempo você aprende a só chegar no fundo no poço se você permitir.
‒ Como assim? Por que alguém iria querer propositalmente chegar ao fundo do poço?
‒ Porque viver no raso cansa. Me afogo no raso.
‒ Ahm. (...) Você tem ido muito ao fundo do poço?
‒ Sim. Pego poesia no fundo do poço e volto.
‒ Se a poesia está lá, volta por quê?
‒ Porque fico sem ar. Viver no fundo do poço é triste e sufoca. Mas ao mesmo tempo viver no raso parece superficial demais. Aí parece que vivo pra tentar encontrar o meio termo.
‒ (...)
‒ Um lugar bom pra pensar é em um jardim.
‒ Não entendi de novo.
‒ Pergunte a um engenheiro o que é um jardim e ele vai te dizer como fazer um jardim perfeito, com espaços simétricos e perfeitos e com detalhes que beiram à perfeição. Pergunte a um paisagista e ele lhe dirá que plantas comprar pra combinar com sua casa, que cores você deve usar e onde colocar as flores.
‒ Tô entendendo. Continue.
‒ Agora, por fim, pergunte a um jardineiro o que é um jardim. Ele sim sabe o que é um jardim. Ele respeita o tempo e o espaço das plantas e flores. Ando desconfiando muito de que todos os jardineiros são poetas.
‒ (...)
‒ Se ainda tiver dúvida, pergunte a Rubem Alves o que ele acha de jardins. Ele conseguirá ficar falando por horas, tentando te explicar. Já leu a crônica "Jardim" que ele escreveu? Aquilo sim é um tapa na cara de quem contrata paisagistas. Quem contrata paisagista não entende de jardins, porque as saudades do paisagista não são as suas saudades. Aí o jardim fica alheio; incomunicável. Não passa de um amontoado de plantas.
‒ E você tem um jardim pra poder sentar na terra e pensar em nada?
‒ Não. Ainda não. Tenho preferido o fundo do poço no meu quarto. Por isso te digo que a gente deveria sair mais de casa.
‒ Deveríamos sim. Mas nunca me sobra tempo pra poder ficar sentado olhando a avenida.
‒ Pois é. Esse é o problema. Em todos os momentos o fundo do poço sempre está mais acessível.
‒ (...)
‒ (...)
‒ Já vou embora. Essa conversa sobre jardins me distraiu.
‒ Tudo bem. Vou ficar olhando a avenida. E ah... Sempre que nos encontramos te indico músicas que você precisa ouvir. Dessa vez escolhi Caetano pra você.
‒ Qual música dele?
‒ "Alegria, alegria."
‒ Ok, vou ver se ouço hoje.
‒ Sim. E não esquece dos jardins.


E alguém xingou alguém no trânsito da avenida. O semáforo abriu.




26 de janeiro de 2013

Ensaio sobre ela


           
Você mexeu o braço e se ajeitou no meu travesseiro. Foi o suficiente pra me fazer pensar.
Olha só onde chegamos: eu, que sempre tive um pensamento do tipo "viverei à paisana e sofrerei os danos sozinho", me vi agora querendo andar em par.

Nós dois sabemos que não cabemos nesta cidade: as janelas daqui são sempre pequenas demais.
Talvez a gente mude a cama de lugar ou compre outros livros.
Sempre queremos - ao contrário de todos - adiar as segundas-feiras e viver domingos: respeitar nossa preguiça.

Sua perna está em cima de mim, como você sempre faz.
(Quantas vezes você já ficou acordada me olhando, assim, como faço agora?)
Descobrimos uma sombra confortável e entendemos juntos que "o resto é sombra de árvores alheias".

Nos entendemos porque somos indiferentes às mesmas coisas.
Porque tudo isso soa como um clichê horrível.
Porque você me entendeu e eu nem me expliquei.
Porque não tenho medo do fundo das suas gavetas.
Porque você sempre esquece seu isqueiro comigo e eu sempre acho que foi sem querer.

Mas dorme, que amanhã ainda é domingo.