27 de outubro de 2013

Madrugada



Acordou.
Assim como as outras vezes, não sabia por que tinha acordado.
Sentou na cama.
Não sabia que horas eram.
Pensou no arrastado trajeto até o banheiro.
Bocejou como quem não quer pensar em nada nos próximos minutos.
Levantou.

Saiu do banheiro e foi à cozinha.
Sentou.
Podia sentir o frio metálico da cadeira, mas a preguiça era demais pra se esquivar dessas pequenas coisas.
Comeu bolachas.
Olhava fixamente pra janela fechada.
O vidro deixava passar alguma luz amarelada de algum poste da rua.
Comeu bolachas como quem não tem mais nada a perder; como quem nasceu pra sentar em cadeiras metalicamente frias e comer bolachas.

Terminou de comer e ficou cinco minutos parado sentindo o ar ligeiramente frio que circulava pela casa.
Podia enxergar o trajeto do vento pelos cômodos.
Percebeu que estava se sentindo em paz.
Não havia peso em suas costas.
Não havia pedras em sua cabeça.

Deitou na cama e se cobriu.
Queria vencer o sono e prolongar aquele momento.
No fundo, sabia que esses  quinze minutos foram os momentos mais verdadeiros que já tinha vivido.
Percebeu que o ontem era domingo e o amanhã seria segunda: e os quinze minutos não estavam em dia nenhum.
Eram quinze minutos seus.
Quinze minutos fora de qualquer coisa.

Não acreditou em quão leve podia ser viver.
Sabia que tudo isso iria passar quando acordasse.
Virou para o outro lado da cama e se cobriu até a cabeça.
Se conformou com a não-poesia do óbvio que estava por vir.

Dormiu.
E os dias foram como sempre foram.



2 comentários:

  1. Nossa muito bom o texto!!! Parabéns bixo, é como se eu pudesse vivenciar cada cena deste breve narrador.

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  2. Muito bom Athos! Você escreve muito bem. Parabéns!

    Enzo

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