28 de janeiro de 2013

Sem lenço, sem documento



‒ Gostei desse lugar.

‒ Por quê?
‒ Porque é calmo e dá pra ficar vendo a avenida.
‒ Sim. A poesia fica mais perto.
‒ Ué. Como assim?
‒ Ah. Não sei direito. Ando meio cansado, acho. Ando prestando atenção nessas coisas.
‒ Ainda não entendi.
‒ Acho que a gente deveria sair mais de casa. Também existe poesia fora do meu quarto. Você disse que gosta daqui porque pode ficar quieto olhando a avenida. Isso é poesia. Em alguns lugares a poesia se mostra pra gente, mas ela é sempre muito sutil.
‒ Acho que entendi.
‒ Entendeu mesmo?
‒ Mais ou menos. É difícil. Prestei atenção no que você disse, mas não sei...
‒ Te entendo. Quando estiver olhando pra avenida, tenta não prestar atenção em nada, então talvez alguma nuvem de poesia apareça e, com vergonha, diga "oi".
‒ Então não devo prestar atenção em nada pra poder enxergar poesia?
‒ Exatamente. Mas descobri outro jeito de enxergar poesia também.
‒ Que jeito?
‒ No fundo do poço.
‒ (...)
‒ Com o tempo você aprende a só chegar no fundo no poço se você permitir.
‒ Como assim? Por que alguém iria querer propositalmente chegar ao fundo do poço?
‒ Porque viver no raso cansa. Me afogo no raso.
‒ Ahm. (...) Você tem ido muito ao fundo do poço?
‒ Sim. Pego poesia no fundo do poço e volto.
‒ Se a poesia está lá, volta por quê?
‒ Porque fico sem ar. Viver no fundo do poço é triste e sufoca. Mas ao mesmo tempo viver no raso parece superficial demais. Aí parece que vivo pra tentar encontrar o meio termo.
‒ (...)
‒ Um lugar bom pra pensar é em um jardim.
‒ Não entendi de novo.
‒ Pergunte a um engenheiro o que é um jardim e ele vai te dizer como fazer um jardim perfeito, com espaços simétricos e perfeitos e com detalhes que beiram à perfeição. Pergunte a um paisagista e ele lhe dirá que plantas comprar pra combinar com sua casa, que cores você deve usar e onde colocar as flores.
‒ Tô entendendo. Continue.
‒ Agora, por fim, pergunte a um jardineiro o que é um jardim. Ele sim sabe o que é um jardim. Ele respeita o tempo e o espaço das plantas e flores. Ando desconfiando muito de que todos os jardineiros são poetas.
‒ (...)
‒ Se ainda tiver dúvida, pergunte a Rubem Alves o que ele acha de jardins. Ele conseguirá ficar falando por horas, tentando te explicar. Já leu a crônica "Jardim" que ele escreveu? Aquilo sim é um tapa na cara de quem contrata paisagistas. Quem contrata paisagista não entende de jardins, porque as saudades do paisagista não são as suas saudades. Aí o jardim fica alheio; incomunicável. Não passa de um amontoado de plantas.
‒ E você tem um jardim pra poder sentar na terra e pensar em nada?
‒ Não. Ainda não. Tenho preferido o fundo do poço no meu quarto. Por isso te digo que a gente deveria sair mais de casa.
‒ Deveríamos sim. Mas nunca me sobra tempo pra poder ficar sentado olhando a avenida.
‒ Pois é. Esse é o problema. Em todos os momentos o fundo do poço sempre está mais acessível.
‒ (...)
‒ (...)
‒ Já vou embora. Essa conversa sobre jardins me distraiu.
‒ Tudo bem. Vou ficar olhando a avenida. E ah... Sempre que nos encontramos te indico músicas que você precisa ouvir. Dessa vez escolhi Caetano pra você.
‒ Qual música dele?
‒ "Alegria, alegria."
‒ Ok, vou ver se ouço hoje.
‒ Sim. E não esquece dos jardins.


E alguém xingou alguém no trânsito da avenida. O semáforo abriu.




26 de janeiro de 2013

Ensaio sobre ela


           
Você mexeu o braço e se ajeitou no meu travesseiro. Foi o suficiente pra me fazer pensar.
Olha só onde chegamos: eu, que sempre tive um pensamento do tipo "viverei à paisana e sofrerei os danos sozinho", me vi agora querendo andar em par.

Nós dois sabemos que não cabemos nesta cidade: as janelas daqui são sempre pequenas demais.
Talvez a gente mude a cama de lugar ou compre outros livros.
Sempre queremos - ao contrário de todos - adiar as segundas-feiras e viver domingos: respeitar nossa preguiça.

Sua perna está em cima de mim, como você sempre faz.
(Quantas vezes você já ficou acordada me olhando, assim, como faço agora?)
Descobrimos uma sombra confortável e entendemos juntos que "o resto é sombra de árvores alheias".

Nos entendemos porque somos indiferentes às mesmas coisas.
Porque tudo isso soa como um clichê horrível.
Porque você me entendeu e eu nem me expliquei.
Porque não tenho medo do fundo das suas gavetas.
Porque você sempre esquece seu isqueiro comigo e eu sempre acho que foi sem querer.

Mas dorme, que amanhã ainda é domingo.